por Alexandre Alves


Carros do ano pós-digitais. Ainda não voadores, mas já anfíbios. Muitos compradores, vários endividados por isso. Pedágio urbano, por metro utilizado, da Cidade Alta até Ponta Negra somente com máscaras de oxigênio multifuncionais. Pagamento em euro-dólar-iene virtual, nova moeda unificada.

Casas litorâneas flutuantes, especulação imobiliária aérea, terrenos tradicionais já vendidos. Favelas do tamanho de uma zona inteira, sul e norte. Água dessalinizada para os desafortunados, mineral apenas para os abastados. Rios tornados margem, peixes tornados fonte de pesquisa mumificada. Praias com protetor solar 999, aos brancos demais câncer de pele grátis (aviso dado em 2013). Imposto para caminhadas na praia. Necessário: pouco espaço, muitos pés. Árvores apenas para projetos de arquitetura com paisagismo de encomenda, aliás, profissional importado. Computadores holográficos de centésima geração. Celulares ainda não intergalácticos, mas já lunáticos. Viagens ao redor da Terra para fotos oculares de câmeras implantadas no olho humano. Natalenses na lista de espera. O alvo: o efeito estufa, turistas empolgados para o concurso da derradeira imagem observada do planeta. Amazônia transplantada para a Mata Atlântica potiguar, sob ordens da ONU e OMC. O maior cajueiro do mundo com DNA multiplicado, uma moda no Japão (para cada habitante, uma cópia). Big Brother Brasil 5551, exclusivo somente com potiguares (todos naturalizados, nenhum original, todos autóctones piratas), canais com transmissão conectada ao cérebro via satélite, câmeras adicionais aos doentes terminais (nova droga liberada pelo Ministério da Doença, ex-Sáude) e ângulos divididos por profissão. Ginecologistas mais requisitados. Febre amarela extinta e febre azul por conta da cor do horizonte. Risco maior na região dos trópicos. Música interativa sem canções ou melodias, apenas pedaços esparsos do passado, extintos artistas da terra. Cosmopolitismo, não ao localismo. Slogan da hora. Hospitais destruídos por excesso de leitos. De morte. Em seu lugar, clínicas de implante sensorial. O direito a uma nova farsa sobre sua vida. Endividamento eterno. Parque das Dunas tornado ilha, ingresso caríssimo. Vegetação raríssima, eis o chamariz. Bibliotecas cibernéticas, livros sem peso (altamente ecológico), apenas universidades particulares e seus milhares de graduados. O Ceará vendido pelo governo horizontal e comprado pelos verticais (Direita e Esquerda congeladas no tempo). Mossoró e Assu, na região metropolitana, com as Olimpíadas Artificiais de Inverno, novas prioridades das prefeituras locais, comandadas por Robôs C3-PO, por sua vez comandados via fibra ótica por baixo dos oceanos. Os mandantes: os prefeitos e seus onze meses e meio de férias (no Caribe, claro, clima tropical). Camarões transgênicos já torrados pela luz solar. Mulheres como chefes das empresas. Maridos de licença poligâmica. Filhos com psicose múltipla e tripla personalidade confirmada. Internet via telepatia. Cartões de crédito com código de barras tatuado na região genital. Gravidez aos nove anos, crescimento hormonal e multiplicação em testosterona antropofágica. Cemitérios em greve, sem espaço. A estratosfera norte-rio-grandense já repleta de caixões. Políticos em coma induzido, oligarquias de priscas eras incluídas, à espera do elixir da vida eterna. Ou do Santo Graal, para os mais religiosos. Aeroplanos em largas prestações, mais endividamento. Chuva ácida, remédio para as multidões. Carnaval doze vezes por ano. Camisa de Vênus, de Mercúrio, de Saturno, de Júpiter, de Plutão, de Urano. Shopping centers à beira-mar ao alcance da mão. Ou da secretária robótica de baixa octanagem. Fronteira com a Paraíba, esta inundada pelas ex-geleiras da Antártida, uma big cidade: Natal em 2051.

* Natal 2051 é parte integrante do livro Terceiro Silêncio, ainda inédito, que obteve menção honrosa no Prêmio Câmara Cascudo 2008.

* Alexandre Alves é semiquase escritor e integrante do grupo The Automatics.